Carta Pastoral 2025/2026
“Semeadores de Esperança”
26 de outubro de 2025
50º aniversário da ordenação episcopal de D. Manuel Martins
Introdução
Amados irmãos e irmãs da Diocese de Setúbal, saudações fraternas a todos, todos, todos.
No dia em que celebramos os 50 anos da ordenação episcopal de D. Manuel Martins, primeiro bispo desta jovem diocese, dou graças a Deus convosco e escrevo-vos com espírito fraterno, pastoral e sinodal. Desejo que queiramos acolher este novo ano pastoral com a firme certeza de que o Senhor continua a caminhar connosco, nas alegrias e nas tristezas, nos desafios e nas rotinas; é Ele quem nos conduz e sempre com o Espírito da Esperança.
D. Manuel Martins marcou a sociedade portuguesa, a nossa Igreja e a cada um de nós com a sua voz firme e o seu coração aberto. Foi um Pastor com cheiro a ovelhas como iria pedir, anos mais tarde, o Papa Francisco aos seus bispos; um bispo com cheiro a povo, atento às feridas, defensor dos pobres, peregrino entre os seus. A sua afirmação: “A Igreja não pode ficar de braços cruzados enquanto houver quem sofra fome, injustiça ou solidão” (Homilia, Setúbal, 1976) é para ser repetida, tantas vezes quantas as necessárias. Honrá-lo é continuar a sua missão — não como quem protege uma herança, mas como quem a fecunda com fidelidade criativa. Por isso, de “Peregrinos de Esperança”, podemos e devemos passar a “Semeadores de Esperança”, gente que revolve a terra, para que dê fruto e fruto em abundância.
- Visitas Pastorais: voltar ao encontro
A partir de janeiro de 2026, retomaremos, com alegria, as visitas pastorais. Estas visitas não são uma mera formalidade ou celebração: são momentos de comunhão efetiva, de escuta mútua, de presença ativa do pastor junto do rebanho.
Como o Pai da parábola, que “ao ver ao longe o filho, correu-lhe ao encontro, movido de compaixão” (Lc 15,20), também o bispo quer encontrar-se com cada comunidade. Peço-vos que estas visitas sejam momentos de festa, mas acima de tudo, tempos de encontro, em que todos se sintam livres de falar e de escutar, porque a escuta também exige liberdade.
- Tríduo Sinodal: um caminho de três tempos
Acompanhar o ritmo da Igreja universal é também um gesto de fidelidade. Por isso, daremos início ao Tríduo Sinodal, proposto pela Secretaria-Geral do Sínodo e acolhido pela nossa Comissão Diocesana, com o seguinte calendário:
- 2025/2026: ano da escuta e do acolhimento;
- 2026/2027: ano do discernimento e da reflexão;
- 2027/2028: ano da ação e do envio;
Como recorda o Papa Leão XIV: “A sinodalidade não é uma estratégia pastoral, mas o estilo de uma Igreja que se sabe corpo vivo, animado pelo Espírito, onde todos têm voz e missão”.
- Um novo mapa para uma nova missão
Acolher, refletir e rezar a proposta do Novo Mapa Pastoral da Diocese será uma das tarefas centrais deste ano. É uma reorganização necessária e urgente, que será feita em espírito de comunhão, paróquia a paróquia, com a mediação dos Conselhos Pastorais.
Mais uma vez peço, rezo, suplico e grito para que TODAS as nossas comunidades paroquiais constituam os seus Conselhos Pastorais Paroquiais e os Conselhos Paroquiais para os Assuntos Económicos.
É importante realçar de novo o que tenho afirmado: a imperiosidade pastoral da efetivação destes lugares de comunhão e corresponsabilidade. Não pode haver medo da escuta: nem o sacerdote é um monarca nem os fiéis o podem ignorar mas todos devem procurar a perscrutação da vontade de Deus.
Aqui recordo palavras do segundo bispo de Setúbal, D. Gilberto Reis, que nos deixou esta exortação: “A Diocese de Setúbal deve ser sempre uma casa aberta, onde cada batizado encontra lugar, missão e dignidade” (Carta Pastoral, 2005).
- Escola da Fé: formar para servir melhor
A Escola da Fé, entrará numa nova etapa, com propostas de formação espiritualmente enraizadas, pastoralmente pertinentes e culturalmente abertas, que já estão a decorrer no terreno, de modo descentralizado, na Amora, na Moita e em Setúbal.
O Papa Leão XIII inquietou a Igreja quando disse palavras que continuam a ser atuais: “A ignorância das verdades religiosas é a maior das misérias e o princípio de todas as outras” (Sapientiae Christianae, 1890, n. 14).
E como dizia o jovem Santo Carlo Acutis: “Todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias”. Formarmo-nos é proteger a nossa originalidade cristã — para que sejamos discípulos autênticos, capazes de testemunhar com alegria, capazes de saber anunciar as razões da nossa Esperança.
- Acompanhamento na fragilidade: doença, morte, luto
Vivemos tempos em que muitos enfrentam sozinhos as dores da vida. E são tantas as dores. A doença, a morte e o luto talvez pareçam as mais óbvias e este ano que vivemos, revelou e continua a revelar muitas destas dores. Mas há muitas outras: a solidão, a violência doméstica, o desemprego. Todas estas realidades nos colocam em situações de fragilidade. Inspirados na compaixão do bom samaritano (cf. Lc 10,33), devemos procurar formas mais próximas e eficazes de presença e acompanhamento.
Aqui cabe recordar o apelo de D. José Ornelas, terceiro bispo de Setúbal: “Não podemos fechar-nos nos nossos problemas; a Igreja é missionária por natureza e deve abrir-se ao mundo inteiro” (Homilia, 2018)
- Vocações: rezar, cuidar e acolher
Com a Obra do Bom Pastor, queremos que a oração pelas vocações esteja presente em todas as comunidades da nossa Diocese.
Este ano, para além dos seminaristas sadinos, que são 9, 4 novos e 5 que transitam do ano passado, – uma alegria e uma bênção para este vosso Pastor – acolhemos dois seminaristas e um sacerdote da Diocese de Tete (Moçambique), e um seminarista da Obra da Rua (Casa do Gaiato). É sinal de comunhão e partilha universal.
- Cinquenta anos que lançam um novo horizonte
Nesta data encerramos as celebrações dos 50 anos da criação da diocese. Este será o ano em que iniciamos um novo cinquentenário da Diocese. Gostaria que esta celebração não seja vivida como algo que se conclui, mas sim como algo que começa. E para tal, fixemos desde já, o nosso olhar no Jubileu da Redenção em 2033. Alguns dirão que ainda falta muito para 2033. Mas o tempo voa, e queremos ser como as aves do céu, que voam num horizonte que desconhece o limite do tempo. Foi assim com a nossa Diocese, sonhada numa perspetiva de futuro.
E, para concretizar a forma como podemos e devemos projetar este futuro, recordo as palavras do Cónego João Alves, Vigário Episcopal antes da criação da Diocese: “A Igreja só cumpre a sua missão quando se faz próxima, presente e solidária com o povo que serve” (Conferência pastoral, Setúbal, 1974).
- Partilha e solidariedade
Nenhuma Igreja Diocesana está, portanto, a cumprir a sua Missão se não entrar neste espírito de busca pelo outro e de partilha. Ora a partilha só acontece se a generosidade se fizer sentir a partir do coração e da inteligência. A generosidade a procurar não é tanto uma questão pontual, mas uma tomada de consciência da corresponsabilidade em dar o que também é recebido, e que isso não me tira nada mas me engrandece aos olhos de Deus. Nesta generosidade vai o tempo empregue com os outros, o sonhar elevar os mais frágeis da sua condição, o promover a dignidade essencial de cada um, mas não exclui – antes a implica – a partilha dos bens materiais necessários. Como dizia São João Crisóstomo, «Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos» (In Lazarum, 2, 6).
Para acontecer esta solidariedade – também a que parte das estruturas da Igreja Diocesana – é portanto necessário que haja partilha, feita de prontidão, grandeza, contas certas e transparentes. Façamos um esforço para que não sejam os bens, ou a sua falta, a atrapalhar a nossa presença efectiva junto de quem precisa de auxílio.
Sublinhemos as palavras do Papa Leão XIV na recentemente publicada Exortação Apostólica DILEXI TE, «Eu te amei»: “Quer através do vosso trabalho, quer através do vosso empenho em mudar as estruturas sociais injustas, quer através daquele gesto de ajuda simples, muito pessoal e próximo, será possível que aquele pobre sinta serem para ele as palavras de Jesus «Eu te amei» (Ap 3,9).
- Semeadores de Esperança
Por último, retorno à expressão que gostaria de sentir impressa no coração de todos e identitária das nossas vidas, enquanto diocese neste novo ano pastoral: Semeadores de Esperança.
Mas para sermos semeadores de esperança, sejamos homens ou mulheres, crianças ou jovens, adultos ou idosos, precisamos de ter uma sede nova, a sede de Deus. Uma sede que nos inquieta, nos agita e perturba. Como escreveu Santo Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti” (Confissões, I, 1).
A nossa paz tem um nome: Jesus. A nossa esperança está assente numa rocha firme: a Boa Nova de Cristo Vivo! Com Maria, Mater Spei, Santa Maria da Graça, avancemos juntos, confiando no Senhor e uns nos outros. Sejamos, com ousadia e humildade, Semeadores de Esperança no coração da Diocese de Setúbal.
São Paulo VI, rogai por nós.
† Cardeal Américo Aguiar
Bispo de Setúbal




