Caríssimos irmãos e irmãs, permiti que faça uma pequena reflexão convosco. Uma saudação fraterna e renovada ao reverendo Padre Quintela, ao Padre Angelino, lembrando todos os padres que serviram esta comunidade ao longo dos tempos, e também todos os homens e mulheres agentes pastorais que ao longo das décadas e dos séculos aqui testemunharam o rosto de Cristo vivo nesta comunidade, que depois teve filhas, as paróquias que vão sendo criadas a partir deste território, a todos queremos colocar no coração de Deus e no cuidado da Sua Santíssima Mãe, Senhora do Monte.
Esta celebração começa num contexto muito bonito. Aliás, penso que é a primeira vez que estou numa celebração de visita pastoral em que antes tivemos Adoração do Santíssimo, e com protagonistas muito especiais, os meninos e meninas da Catequese, que é um exercício de muita heroicidade.
Portaram-se excelentemente bem, por causa do Santíssimo, certamente. Mas, acima de tudo, há bocadinho, foi-lhes proposto que, olhos nos olhos, coração a coração, e depois, com a bênção do Santíssimo, abrissem os seus corações e partilhassem com Jesus Sacramentado aquilo que são as suas vidas, os seus sonhos, que rezassem por isso e também que rezassem pelo Bispo, que nunca é demais.
E, por isso, esta celebração tem esta antecâmara daquilo que são os sonhos, as alegrias, as tristezas, os sofrimentos de todos os meninos e meninas que aqui estiveram e que englobam toda a comunidade. Ou seja, não podíamos ter tido uma antecâmara, uma introdução mais bonita e mais profunda no coração de Deus como os coraçõezinhos dos meninos e meninas que partilharam o seu sentir com o próprio Jesus. Eu lembrei-lhes do nosso querido São Francisco Marto, pastorinho de Fátima, que faltava às aulas porque gostava de ir visitar ou de estar com Jesus escondido no Sacrário.
Quando Francisco não estava, já sabiam que ele estava na Igreja Paroquial de Fátima a rezar ao Jesus escondido. Portanto, não usem isso muito ou usem só uma vez, não é? Não abusem dessa boa desculpa para não estar na escola e estar a rezar ao Jesus escondido, como ele dizia de maneira tão bonita e especial.
A visita pastoral não é uma inspeção. Como dizia há bocadinho o reverendo Padre Quintela, nas tarefas do Bispo, aquilo que significa também dar recomendações e corrigir ou felicitar por essas coisas menos importantes, mas que são importantes para a organização desta comunidade.
E até achei engraçado que há umas décadas atrás teve cá um padre, era Domingos, que era matemático. E matemático significa arrumadinho, não é? E, portanto, até dizem, quando vieram as informáticas e essas coisas todas, que ele era o primeiro a usar e a utilizar e a proporcionar. Por isso, agradeço muito a toda esta comunidade e este trabalho que fazem permanentemente.
Permitir sublinhar o Evangelho que acabámos de ouvir, que o Padre Pedro Quintela proclamou. E, acima de tudo também, é oportunidade de lembrarmos o nosso primeiro Bispo, o Sr. Dom Manuel Martins. Eu ouvia-o dizer muitas vezes uma coisa muito interessante. Ele dizia, cada um de nós, cada um de vocês, todos e cada um de nós, todos, todos, todos, valemos nada mais, nada menos que Deus. Cada um vale Deus. Ninguém vale mais e ninguém vale menos.
Eu não valho mais do que nenhum de vocês e, com todo respeito, nenhum de vocês vale mais do que eu. Ou seja, valemos o mesmo. Valemos nada mais, nada menos que Deus.
Ora, nós, quando ouvíamos há pouquinho Jesus dizer exatamente isso, de outra maneira, queremos significar, no dia-a-dia da nossa vida, essa alegria imensa no nosso coração de nos descobrirmos filhos amados de Deus. Com os nossos problemas, com as nossas dificuldades, com os nossos anseios, com os nossos sorrisos, com as nossas lágrimas, mas descobrirmos irmãos é uma graça de Deus. O Papa Francisco passou todo o seu pontificado com aquela questão da fraternidade universal, de nos descobrirmos verdadeiramente irmãos.
Que aquilo que nos torna diferentes não é um problema, é uma riqueza. E eu, nesta vigararia de Almada Caparica, tenho constatado exatamente isso. Uma diversidade de proveniências, uma diversidade de geografias que não devem ser problema, pelo contrário, devem ser uma riqueza. Colocam desafios novos, é certo. Mas eu estou convencido com o tempo, com os anos, e principalmente nesta teia que é a comunidade cristã e na escola, que as diferenças vão sendo entendidas cada vez mais como riqueza, como oportunidade, e não como ameaça, como infelizmente alguns gostam de sussurrar nos corações e mediaticamente, tantas vezes e permanentemente, a dizer que o meu irmão, por ser diferente, é um problema e é uma ameaça para mim. Não é. Definitivamente não é, nem pode ser. E nós temos, comunidade cristã, temos que ser os primeiros a testemunhar essa alegria de nos descobrirmos e nos redescobrirmos verdadeiramente irmãos.
Nós ouvíamos, a certa altura, Jesus dizer não temais, valeis muito mais que todos os passarinhos. E nós não podemos esconder essa graça, esse dom, para nós ou para os nossos, temos que os testemunhar aos irmãos e às irmãs, a todos, todos, todos.
O nosso querido e saudoso Papa João Paulo II, no início deste terceiro milénio, que já leva 26 anos, veja como o tempo corre, e não me lembro do jubileu do ano 2000, significa que estou a ficar maduro, e infelizmente lembrámos todos das Torres Gémeas e do ataque às Torres Gémeas dos Estados Unidos, e como isso significou um soco no estômago. Nós estávamos todos felizes com o início do novo milénio e de um momento para o outro, um gesto de tanta violência, de tanta morte e de tantas trevas.
E no documento que o Papa São João Paulo II nos dirige, a certa altura diz mais ou menos assim, os homens e as mulheres deste novo milénio esperam, aguardam, gritam a cada um de nós cristãos que sejamos capazes de lhes mostrar, de lhes testemunhar o rosto de Cristo. Essa é a nossa missão, testemunharmos aos irmãos e às irmãs o rosto de Cristo, de Cristo vivo. E nós perguntámos, e qual é o rosto de Cristo? Nós temos aqui peças belíssimas de arte com interpretações diversas do rosto de Jesus, do rosto de Cristo.
Mas nós, é um exercício que eu faço muitas vezes, que é tentarmos descobrir qual é o rosto de Cristo vivo para mim. E vamos ao exercício. E convido-vos a olhar para quem está ao vosso lado.
Olhem lá, muito bem, ok. Agora para trás e para a frente, quem tiver oportunidade. Eu atrás não tenho nenhum.
Ora, estão a ver o que vos saiu. A cada um saiu o rosto de Cristo vivo que eu tenho que testemunhar no irmão e na irmã que está ao meu lado, que faz caminho comigo. É muito diferente, é muito parecido.
Gosto, não gosto, cada um tem o que merece. Agora, são esses os rostos de Cristo vivo. Eu tenho a oportunidade neste momento de ver muitíssimos rostos de Cristo vivo.
Vocês não têm tanta diversidade de olhar para este lado. Mas é esse o desafio de nós sermos capazes de, na alegria do dia a dia, com problemas e com dificuldades, testemunharmos essa certeza de que Cristo vive e a alegria do Evangelho é a nossa missão. Há bocadinho, o reverendo padre Quintela, com os meninos na adoração, dizia uma coisa que eu achei bonito, a imagem, a transmissão da fé. Ele dizia que as famílias têm o hábito, ao longo dos tempos, de guardar um anel, de guardar uns brincos, de guardar um cordão, de guardar uma peça que a avó dá à filha, a filha dá à neta, a neta dá a não sei quem, depois o filho dá à futura esposa, à futura esposa, não sei o quê. Portanto, são aquelas peças que nós transmitimos como tesouro de qualquer coisa muito importante, até, às vezes, mais do que o valor, no significado que têm. Ora, a transmissão da fé é exatamente isso, nós sermos capazes de ter consciência do tesouro que guardámos e na urgência e na beleza de nós transmitirmos essa fé às novas gerações, de a defendermos, de a salvaguardarmos e de a passarmos como testemunho às novas gerações.
Como dizia o outro, vamos andar por aqui, ou melhor, vou andar por aí. Durante estes dias, até 5 de julho, não é tempo mais, é mais ou menos o mesmo tempo das outras, porque depois eu vou estar em Roma, no Consistório, certamente levo saudações vossas para o Papa Leão XIV, muito bem? Eu vou lhe dizer, olha, estou a faltar uma visita pastoral para estar aqui, não é? E, portanto, depois eu digo-vos o que é que ele me vai responder de troca, certamente, para cada um de vocês.
Por isso, meus queridos irmãos e irmãs, o que vos peço agora é ensinar-vos uma oração que já é famosa em alguns sítios para, durante esta semana, rezarmos durante a visita pastoral. Que é assim, é uma oração muito antiga, criada em Santa Maria da Feira e o destinatário era o São Sebastião, que lá é muito famoso, por causa das fogaças e da peste e mais não sei o quê. Então eles rezam lá assim, Deus nos livre da fome, da peste e da guerra e do Bispo cá na Terra.
Portanto, é a oração que eles têm lá. E, portanto, eu queria que rezassem durante todos estes dias, rezassem esta oração, porque é boa para os dois lados. Portanto, vocês rezam para se verem livres de mim e eu rezo também para que termine a visita ao Monte da Caparica.
Ora, porquê que era assim? É divertido. Era assim porque, naquele tempo, o Bispo não ia sozinho ou não ia com mais um ou dois. Ia muita gente.
E eram as carroças e os cavalos e os burros e os não sei quem, o ecónomo, o chanceler e mais não sei quem. Ia aquela malta toda, pá e vinte, trinta ou quarenta. Era preciso dar de comer àquela gente toda e dá-lhes pousada e aquela malta tratava-se bem.
E, portanto, as paróquias ficavam felizes de os verem de lá para fora, não é? Ficavam felizes de os verem de lá para fora. E, por isso, rezavam assim para que a visita fosse o mais rapidazinha possível, para que fossem pregar para o outro lado, literalmente.
Portanto, meus queridos irmãos e irmãs, durante esta semana, tenho a certeza que eu rezo para me ver livre de vocês e também fico com a certeza que rezarão para que ocorra da melhor forma e estou feliz e contente, já neste primeiro dia, mais um bocadinho, daquilo que vi, daquilo que testemunhei e temos tantas, tantas coisas bonitas para ver, tantos homens e mulheres para encontrar, mas, acima de tudo, tantos rostos de Cristo vivo para que eu possa também receber o testemunho da alegria do Evangelho em cada homem e em cada mulher que vamos ao encontro.
Assim seja.
† Cardeal Américo Aguiar
Bispo de Setúbal




