Criada em 16 de julho de 1975, após um prolongado processo iniciado logo em 1926, com a instituição do Distrito de Setúbal, a Diocese de Setúbal acompanhou o desenvolvimento expressivo do distrito e da península e foi um dos principais agentes sociais e comunitários deste território, num contexto marcado pela aprendizagem da democracia e tomada de consciência dos seus principais mecanismos, pela génese, consolidação e reforço do poder local democrático e por um cenário económico com alguns altos e muitos baixos, com consequências determinantes na vida social das populações.
Abrangendo um vasto território — 1500 km2 — e englobando 11 concelhos, os primeiros anos da diocese foram marcados pelo súbito e significativo aumento da população do distrito, quase duplicando em relação aos anos 70 do século passado, bem como pela crise económica de 1983 a 1984, com reflexos evidentes no distrito (queda da produção industrial, grande aumento do desemprego e diminuição relevante do consumo das famílias, múltiplos episódios de fome).
É durante esse período, e nos anos subsequentes, que a atividade da diocese e, muito particularmente do seu primeiro bispo, D. Manuel Martins, assume uma importância decisiva, quer por meio da denúncia da conjuntura que se vivia, ampliando as vozes de protesto e reivindicação das populações e dos municípios, quer fundamentalmente por via da ação social então desenvolvida nas paróquias e instituições particulares de solidariedade social, que prestaram um apoio essencial às famílias, acudindo em ocorrências de fome emergente, num esforço coletivo e numa colaboração frutuosa com o poder local que importa e apraz registar.
Foi a constante e vigorosa denúncia das situações de desemprego, dos inúmeros e crescentes casos de fome, da exploração de trabalho infantil e da absoluta falta de condições de vida nas barracas que proliferavam no distrito, ao longo dos 23 anos em que foi bispo de Setúbal, que valeram a D. Manuel Martins os epítetos de «bispo vermelho», «bispo sem medo» ou mesmo «bispo comunista», porque, como sublinhou, «ocupava espaços de onde a igreja nunca devia ter saído».
Em 2025, a diocese de Setúbal celebrará 50 anos de existência. Uma vez mais, o mundo enfrenta enormes desafios. A meio caminho do trajeto definido pela Agenda 2030 das Nações Unidas e pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estabelecidos, muito está ainda por alcançar e houve, inclusivamente, retrocessos notórios em áreas fundamentais, devido a fenómenos extremos decorrentes das alterações climáticas, à prevalência da guerra, designadamente na Ucrânia e na faixa de Gaza e às consequências da pandemia de Covid-19.
É imperioso erradicar a pobreza e a fome, assegurar cuidados de saúde e educação de qualidade, alcançar a igualdade de género e reduzir as desigualdades, proteger o ambiente e garantir uma vida digna, com bem-estar, progresso, paz e justiça social, não deixando ninguém para trás.
Este é um desígnio que nos deve mobilizar, em nome de um futuro melhor. Estou certos de que voltaremos a estar juntos de novo, Município de Grândola e Diocese de Setúbal, na construção de um mundo mais justo, próspero, fraterno e inclusivo.
Grândola, 08 de agosto de 2024
Presidente da Câmara Municipal,
António de Jesus Figueira Mendes



