Hoje, dia 11 de fevereiro, dia em que se celebra o Dia Mundial do Doente, o Pe. João Rosa, assistente espiritual do Centro Hospitalar de Setúbal há 20 anos, falou-nos um pouco da importância da Pastoral da Saúde não só para a vida e o funcionamento hospitalar, mas também para o panorama das paróquias e da própria Diocese.
Esta ideia de uma pastoral da saúde já surgiu em 1985, com o Papa João Paulo II. Desde então, qual é que acha que é, nos dias de hoje, a importância de ter o acompanhamento de padres e de religiosos nos hospitais e nos lares da Diocese?
Desde já, convém também fazer aqui uma certa distinção entre pastoral da saúde e assistência hospitalar. A pastoral da saúde engloba, digamos assim, toda a área relacionada com a saúde e com a doença numa área geográfica, neste caso da Diocese e das paróquias, etc. Enquanto que uma assistência espiritual hospitalar é muito focada, essencialmente, no doente internado no hospital e também nos profissionais. E, portanto, há aqui algumas pequeninas diferenças. Eu estive sempre, claro, muito ligado também à pastoral da saúde a nível da Diocese, participei desde que existe esse grupo.
Focando aqui no aspeto desta pastoral a nível hospitalar, esta importância tem a ver com o facto de todos nós, seres humanos, termos na nossa vida uma espiritualidade inerente à nossa existência, quer se seja crente ou não, independentemente da religião. E, por isso, a presença, neste caso de um padre, num hospital, vem colmatar essa lacuna, vem também responder a estas necessidades espirituais dos doentes, dos profissionais, todos aqueles que frequentam o hospital, pelas suas características, por aquilo que se vive aqui nestas casas, em que há uma diminuição da afetividade, ficam psicologicamente muito mais frágeis, enfim, é toda esta espiritualidade que fica diminuída e que é necessária também para a recuperação daqueles que padecem de alguma enfermidade e para aqueles que trabalham, que também necessitam do apoio, aqueles trabalham aqui todos os dias com estas situações de fragilidade humana.
Por parte dos doentes, o que é que normalmente, a nível hospitalar, é mais pedido aos padres e às religiosas? São os sacramentos?
É, são os sacramentos, é uma coisa da tradição, continua a ser o sacramento da unção pastoral dos doentes, que o nosso povo ainda continua com a ideia da “extrema unção”. Ainda precisamos fazer uma catequese muito grande sobre este sacramento e também sobre a presença do capelão, do sacerdote, ou de alguma religiosa, do grupo da capelania nos hospitais para não ser só os sacramentos, a unção, a celebração da missa, enfim.
Quando falámos da pastoral da saúde, fez aqui esta distinção entre a pastoral, mesmo a nível hospitalar e a nível do papel comunitário nas paróquias. Como é que se trabalha este papel comunitário nas paróquias?
Nas paróquias, é um trabalho que tem de ser feito, tendo como cabeça o pároco e um grupo de fiéis, de preferência haverá sempre alguém nesse grupo, nessa equipa pastoral paroquial da saúde, ligado à área da saúde, não têm de ser todos, mas alguém.
E esta equipa vai para além dos doentes que estão referenciados e a quais se leva a comunhão, deve ser para todos os doentes, independentemente da sua fé, da sua crença, mas sobretudo porque todos têm necessidade de apoio, de uma palavra amiga, uma palavra de esperança e às vezes até de encontrar soluções para a sua vida, para a sua solidão, para os seus problemas e, portanto, é um apoio sobretudo para a comunidade, com gente da comunidade e visando os mais frágeis.

Há quem diga que uma fé forte tem um contributo significativo no processo de cura de um doente. Pôde comprovar isso ao longo do seu trabalho como capelão hospitalar?
Há vários estudos que o comprovam, já li vários e já falei sobre isso nos vários cursos que tenho feito e mesmo pela experiência de 20 anos num hospital já vou percebendo essa experiência.
Aqui também, a nível particular, porque também tenho as minhas fragilidades, ajuda muito. Cá está, porque não somos só uma “máquina biológica”, só uma quantidade de órgãos aqui a trabalhar. Temos o aspeto psicológico, social, afetivo e espiritual e, quando todos estão bem, o corpo trabalha bem e, quando um está mal, o corpo já trabalha mal e, se todos puderem colaborar para o bem-estar, ótimo e isso é verificado.
Pessoas que têm fé, pessoas religiosas, sejam católicas ou de outras religiões, enfrentam com muito mais fortaleza a doença, têm mais esperança, o que ajuda também no processo curativo, pois tudo isto interfere a nível químico, isto depois é tudo um processo químico, mas ajuda bastante na recuperação e também ajuda muito na aceitação, às vezes também é importante.
Já tendo testemunhado este apoio hospitalar do lado do doente, que testemunha é que nos consegue dar também do outro lado?
Por situações que já tenho passado na minha vida, como muitos de nós, é muito importante cá estar, porque temos esta esperança focada naquele que é O Curador, que é o Nosso Senhor, e que é O Curador de todos nós, cura-nos das nossas fragilidades, não só espirituais, mas também até físicas, foi isso que veio fazer, quando esteve junto de nós há dois mil anos atrás e continua na ação da Igreja.
Eu sempre pedi a presença mesmo, quando por uma vez ou outra tive também necessidade de estar nos serviços hospitalares, internado, foi no diálogo, nos sacramentos, na atenção dos colegas capelões, dos voluntários, ajuda-nos muito e ajuda-me particularmente todos os dias.
Eu sou um bocadinho suspeito, mas se falarmos com outras pessoas, sim, ajuda bastante. Aliás, muitas pessoas mesmo, pedem a colaboração do sacerdote, até os médicos às vezes pedem, para falarmos com os médicos, para ajudar neste processo. Ganhamos confiança que é como uma âncora, um apoio muito forte para a cura e para a aceitação da doença, porque há algumas coisas que não são curáveis, mas são tratáveis, para termos uma vida mais saudável em todos os aspetos.
E nestes 20 anos a trabalhar aqui no Centro Hospital de Setúbal, ou até antes, tem alguma história que o marque mais em relação ao que é o apoio desta Pastoral da Saúde?
São muitas histórias, muitas histórias que tenho, e se calhar até alguns milagres que já passaram, não por mim, mas em que Nosso Senhor se serviu.
Assim, de repente, lembro-me sempre deste, até porque já uma vez o escrevi num dos livros que fizemos. O caso de um jovem de 30 e poucos anos, que teve um acidente de trabalho gravíssimo, e que chegou até nós, nos cuidados intensivos, sem esperança de vida. E eu apercebi-me, ele chegou num fim de semana, chegou num domingo, porque estava de serviço no trabalho, foi como triturado numa máquina lá da empresa. Portanto, quando chegou o INEM, já acharam que já não havia hipótese, mas o INEM conseguiu trazê-lo, recuperá-lo até aqui, mas depois avisaram a família que não havia hipótese.
Pertencia a uma família crente. Ao entrar na segunda de manhã nos cuidados intensivos – tenho esse hábito de ir visitar e passar, ver se é preciso alguma coisa – falaram-me logo daquele rapaz, e, por acaso, tinha-me apercebido da mãe, que estava à porta, logo de manhã – não podia entrar, claro – mas estava de terço na mão, e chamou-me à atenção: à porta dos cuidados intensivos, logo de manhã, uma senhora de terço na mão, havia qualquer história.
Falaram-me imediatamente daquele jovem, e eu fui acompanhando, fui buscar os Santos Óleos, falei com a senhora, e os médicos disseram-me logo: “Olhe, Sr. Padre, vamos ver, mas não temos grandes hipóteses, as hemorragias não param, os valores vitais estão todos descontrolados, prepare a família, o senhor que é padre, prepare a família”.
Bem, as coisas foram progredindo, fui sempre acompanhando, 24 horas depois, começou tudo a modificar, a haver pequenos, mínimos, sinais de esperança. E foram-se seguindo outras 24 horas, e 48 horas, e foi uma luta muito difícil, várias cirurgias, tudo de risco. Acabámos por ficar bons amigos da família, vieram a agradecer, vieram ter uma celebração, uma missa, a agradecer e hoje já faz parte da história daquele rapaz e foi muito graças à fé daquela gente. Os médicos também diziam: “Olha, foi um milagre”, e já vi muitos milagres aqui.

Entrevista: Lara Franquelim Alves
Fotografias: Lara Franquelim Alves e Ricardo Perna




