“Com Arte e com Alma”: O património sacro da cidade de Setúbal em destaque

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A chuva e o frio não impediram que mais de cinco dezenas de setubalenses e outros diocesanos se reunissem na noite da passada terça-feira, dia 9, na Igreja de Nossa Senhora da Anunciada, na cidade sadina, para mais uma conferência/conversa “Com Arte e com Alma”.

Foi um serão que colocou o património sacro da cidade de Setúbal em destaque, uma vez que a Comissão Diocesana de Arte Sacra convidou dois oradores para abordarem temas respeitantes ao património sacro de duas paróquias da cidade que partilham um traço histórico comum: 1553 como ano da sua criação. Trata-se das paróquias de Nossa Senhora da Anunciada e de São Sebastião.

A Dra. Maria João Cândido, que, na qualidade de arqueóloga, tem coordenado na vertente científica as diversas intervenções da Câmara Municipal de Setúbal no património existente nos centros históricos da cidade, expôs o tema “A Igreja de Nossa Senhora da Anunciada através dos tempos: do século XIII à actualidade“. Através de mapas e gravuras da cidade de Setúbal desde o seu período medieval, a oradora ilustrou a história do templo, começando por contar o achamento miraculoso de uma pequena imagem de madeira da Virgem Maria na praia de Setúbal que, na primeira metade do século XIII, deu origem à constituição da Confraria de Santa Maria da Anunciada, a qual construiu a primitiva ermida e o hospital a ela agregado, localizados nos arrabaldes da cidade medieval. O templo sofreu, ao longo da história, algumas vicissitudes, entre as quais os terramotos de 1531 e de 1755, acabando este último por destruí-lo, não havendo lugar à sua reedificação. Com a expulsão das ordens religiosas de Portugal em 1834, o anterior Convento dos Carmelitas Descalços de Setúbal passou a ter outro uso, tornando-se o novo espaço na cidade dedicado a Nossa Senhora da Anunciada, ocorrendo, por assim dizer, um processo de “deslocalização” do templo para a condição e características com que hoje o conhecemos.

O Dr. André das Neves Afonso, Mestre em Museologia e Museografia, assistente das colecções de Ourivesaria e Joalharia do Museu Nacional de Arte Antiga e membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra de Setúbal, apresentou aos presentes uma das mais belas peças do património de pratas litúrgicas da Diocese de Setúbal, numa comunicação intitulada “A Arte da Prata e a Eucaristia. A Custódia setecentista da Igreja de São Sebastião de Setúbal“. O investigador começou por falar da função dos objectos sacros destinados à exposição do Santíssimo Sacramento, usualmente designados de “custódias”, função essa que, no tempo, acabou por determinar a sua forma. Abordou também o desenvolvimento do culto eucarístico ao longo da história, que levou ao incremento da produção deste tipo de objectos, estando os momentos de maior ímpeto desse desenvolvimento de devoção à Santíssima Eucaristia relacionados com a necessidade de afirmação da presença real Jesus Cristo na Eucaristia (nomeadamente face a movimentos que a Igreja considerou de heresia anti-eucarística), com os chamados “milagres eucarísticos” e com algumas revelações místicas. Por fim, passou à análise concreta da Custódia pertencente à Igreja de São Sebastião, datável do século XVIII, em prata dourada e de autoria desconhecida. Mas não sem antes apresentar vários e belíssimos casos ilustrativos da evolução estilística e tipológica deste objecto litúrgico, fruto da criatividade que a Fé foi gerando entre o povo cristão e que se manifestou num querer tributar a Deus o seu melhor através das formas preciosas, dos metais preciosos e das pedras preciosas.

Assim decorreu o terceiro serão “Com Arte e com Alma”, uma proposta da Comissão Diocesana de Arte Sacra de Setúbal já na sua 2ª edição, que permitiu ao povo que acorreu à Igreja de Nossa Senhora da Anunciada avivar a sua fé através da “catequese” recebida da matéria trabalhada pela arte e pela delicadeza dos nossos antepassados e que não cessa de nos falar de uma outra realidade, de onde vimos e para onde vamos…

A 6 de Fevereiro próximo realiza-se o 4º serão “Com Arte e com Alma”, na Igreja de São Lourenço de Azeitão, em torno da história da igreja e de uma escultura cerâmica representando a Virgem com o Menino, em tempos atribuída à famosa oficina italiana dos Della Robbia.

Mais informações em www.artesacra.diocese-setubal.pt e em www.facebook.com/artesacra.diocesesetubal

L. Silva

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13 de Janeiro de 2018