Ordenação do Diácono João Paulo Duarte: Homilia de D. José Ornelas

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Homilia de D. José Ornelas na Ordenação do Diácono João Paulo Duarte

Acolhendo e respondendo ao chamamento de Deus

Caríssimo irmão e amigo, João Paulo! Chegas hoje, aqui, a esta Sé ou Catedral, que surge como Mãe de todas as comunidades da nossa Igreja de Setúbal, depois de um longo percurso de maturação, na oração, na reflexão, no estudo dos mistérios da fé e no diálogo com os responsáveis diocesanos, para discernir o desígnio de Deus para ti e para a Igreja. Escutaste, com coração atento, a voz do Senhor, Bom Pastor, e foste dizendo sim à sua voz, declarando-te disposto a dedicar a tua vida a Ele, para servir os teus irmãos.

Na fase final deste percurso, foste instituído em dois ministérios centrais na vida da Igreja. Em primeiro lugar, no ministério de Leitor, para que tenhas sempre presente, no teu serviço, que é da Palavra de Deus que nasce a fé e a Igreja. Lembra-te sempre que és um homem da Palavra de Deus.

Em seguida, foste instituído no ministério de Acólito, para que exprimas, com a tua atitude e palavra, que é no Banquete Eucarístico que se celebra o mistério da Igreja, constantemente reunida à volta do Senhor ressuscitado; alimentada pelo Pão que Ele reparte para a vida e a união de todos.

Hoje, os responsáveis deste percurso acabam de te apresentar à Igreja, para que, pelas mãos do Bispo, possas receber de Deus o Espírito Santo, que te capacite como Diácono/Servo do povo de Deus, nesta nossa Igreja de Setúbal. Estamos aqui para rezar contigo e por ti, como os discípulos reunidos com Maria, no Cenáculo, implorando o dom do Espírito Santo.

Esta tua ordenação ocorre na solenidade de Maria, a Cheia de Graça, nesta Igreja que tem precisamente este nome: Nossa Senhora da Graça. Gostaria, por isso, de refletir sobre alguns traços fundamentais, que o Evangelho de hoje nos apresenta de Maria, nova Eva, nossa Mãe, Mãe e modelo da Igreja, que são muito importantes para todos, mas especialmente para ti, no exercício do serviço a que és chamado.

A cheia de Graça

O primeiro e o mais importante desses traços encontra-se na saudação do anjo: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo”. Na realidade, o título de Maria na solenidade de hoje – Imaculada Conceição – é uma designação mais redutora, moralista e jurídica da saudação jubilosa e ampla do anjo: “Cheia de Graça”. Este é também o justo título da padroeira da nossa Diocese e desta Sé dedicada a Santa Maria da Graça. Ser cheia de graça não é propriamente uma qualidade de Maria, mas algo que parte de Deus e do seu modo de olhar para ela. Logo depois, o anjo explica este título dizendo: “encontraste graça aos olhos de Deus”. Quer dizer: Deus olha-te com carinho, com bondade; para Ele, tu és querida, preciosa; Ele olha-te com gosto. Este é o princípio fundamental da vocação e da missão de Maria, a sua força e o seu segredo íntimo, que transborda no hino jubiloso que nos deixou: “A minha alma dá glória ao Senhor!”

Deus nunca tinha esquecido a humanidade (a primeira Eva), na sua limitação, miséria e sofrimento. Agora, em Maria, nova Eva e Mãe da nova humanidade, Ele olha para a sua descendência com um novo carinho, a ponto de nela inserir o seu próprio Filho. Esta é a primeira palavra que soa também para cada um/a de nós, nascidos desta nova Eva, regenerados do Coração deste Homem novo. A cada um/a o Espírito segreda: Deus olha-te com bondade, com carinho e misericórdia. Sem esta consciência de ser amado/a por Deus, não é possível uma real atitude de fé, segundo o caminho de Jesus. Todos estamos marcados por este olhar misericordioso e amante de Deus, que dá alegria, força, e esperança à nossa vida e ação.

Este é também o primeiro traço que Maria imprime naqueles que dedicam a sua vida ao Evangelho: Quando Deus chama alguém ao seu serviço e lhe confia uma missão, não está simplesmente a procurar um empregado, mão de obra voluntária e barata. Esse chamamento é, antes de mais, expressão de uma predileção pessoal e de confiança. Foi este olhar carinhoso de Deus que forjou a alma dos profetas, dos apóstolos, dos missionários. Quem faz a experiência do amor de Deus, vai, em seguida, exprimir essa alegria no seu modo de viver, no estilo do seu serviço, na proximidade e na misericórdia para com aqueles que mais precisam. O carinho de Deus torna-nos carinhosos; o perdão e a misericórdia de Deus torna-nos gente de reconciliação e de perdão; a proximidade atenta daquele que nos ama torna-se fonte de cuidado e de serviço para com aqueles a quem somos enviados.

Por isso, Maria, Mãe e modelo da Igreja, é a estrela e a fonte de inspiração para o João Paulo, que hoje recebe o mesmo Espírito que desceu sobre Maria, para ser, a seu exemplo, servo do Senhor, no cuidado do seu Povo.

Não temas!

Em segundo lugar, a atitude de Maria ensina-nos a ser concretos e realistas. Como todos os profetas, Maria sente e exprime a sua pequenez diante da proposta de Deus: “Como pode ser isso, se eu não conheço homem?”. Esta pergunta não exprime um sentimento de ignorância ou humildade mais ou menos protocolar, mas é expressão real da incapacidade humana de realizar, apenas com as próprias forças, aquilo que o anjo anuncia, o projeto maravilhoso de Deus. É, antes de mais, a afirmação de que a missão de Maria será realizada nela e por ela, mas será toda obra de Deus. Ninguém pode gerar na terra o Filho de Deus. Ninguém pode dar o Espírito se o próprio Deus não o dispensar.

É uma atitude fundamental para quem é chamado a ir pelo mundo em nome de Deus. Leva um tesouro precioso em vasos de barro. Deve contar com os próprios limites, fraquezas e pecados. Tudo isso será até útil para sentir constantemente a misericórdia de Deus e saber que não vai em seu próprio nome.

Esta atitude leva a entender que Deus é que é grande, mesmo quando passa através da nossa fraqueza e do nosso ser pequeno e pecador. Longe de nos humilhar na nossa insuficiência, dá-nos alegria, liberdade e confiança no poder e no amor do Pai do céu e faz-nos dizer como Maria: “Eu era pequena e Ele fez em mim grandes coisas!”.

Mas sobretudo, a consciência da misericórdia de Deus que cobre a  nossa fraqueza, é fonte de compreensão e proximidade para com os pequenos, os que tropeçam e os que caem. E este foi sempre o traço fundamental da missão de Jesus, que veio viver no meio dos pecadores, não para julgar, mas para compreender e salvar. Gosto de imaginar que Jesus, sendo embora Filho do amor eterno de Deus, aprendeu de sua mãe o modo e os gestos carinhosos e concretos com que tratou sempre os pequenos, os pobres, os pecadores.

Esse é o estilo daqueles que são chamados a servir a Igreja. Maria ensina todas/os os que estão ao serviço do Evangelho a serem carinhosos, misericordiosos, próximos dos pobres e dos que sofrem, cuidadores de todas as fragilidades, como ela foi do bebé Jesus que foi confiado aos seus cuidados.

Eis a serva do Senhor

O terceiro traço ou sugestão de Maria aos servidores do povo de Deus está contido na resposta final que ela dá ao anjo: “Eis-me aqui, serva do Senhor! Faça-se em mim a tua Palavra”. Serva, no contexto da cultura bíblica, não é simplesmente aquilo que designamos como “escrava”. É expressão de afeto e confiança e, ao mesmo tempo, de obediência fiel e humilde à vontade daquele que se sente como Senhor querido, ao serviço do qual nos encontramos.

É esse sentido de alegria e de fidelidade criativa que caracteriza o ministério eclesial, de que o diácono é particularmente expressão. A ti compete, caro João Paulo, na tua forma de ser e de atuar, ser expressão do serviço alegre e simples de Maria, modelado no serviço e na compaixão do Senhor Jesus, teu Mestre, para com as multidões famintas. És chamado a revelar o carinho especial de Deus, particularmente para com os mais pobres e os caídos à beira da estrada, para levantar os que sucumbiram na sua fraqueza e no seu pecado, para dar ânimo aos que já não têm olhos para ver a luz da esperança. Dessa “compaixão”, que se aprende do Coração de Cristo, é que nascem a missão e o serviço em nome do Evangelho.

Estava com eles Maria, Mãe de Jesus

Para concluir, gostaria ainda de referir um último traço que nos propõe Maria, Mãe de Jesus e da Igreja, àqueles que servem os irmãos e o Evangelho, embora não venha claramente referido no texto que hoje proclamámos. Depois da morte e ressurreição de Jesus, e enquanto esperavam o Espírito por Ele prometido, Maria juntou-se à comunidade dos discípulos e, como diz o livro dos Atos dos Apóstolos, “todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus” (Act 21,14). Deste modo, Maria transmite à Igreja nascente o espírito de espera, de súplica e de escuta, que sempre caracterizou a sua vida.

Somos todos filhos/as desta atitude atenta de Maria a Deus e à Igreja. Ela ensina-nos a viver em comunhão de vida, de oração e de acolhimento do Espírito, em família, nas nossas comunidades religiosas, na paróquia, na diocese, na comunhão universal dos que crêem em Cristo. O louvor e a súplica ao Pai do céu tornam-nos irmãos e irmãs entre nós. Nesta comunhão está já a primeira realização do projeto de Jesus de um mundo novo marcado pelo Espírito.

Hoje, nesta Igreja de Santa Maria, sede da nossa Diocese, repete-se esta comunhão de oração de Maria e dos primeiros discípulos no Cenáculo: A nossa Igreja, aqui reunida, com o Bispo, os presbíteros, os diáconos, os teus pais e toda a tua família, os religiosos/as e os irmãos e irmãs provenientes das nossas comunidades; oramos e imploramos para ti o dom do Espírito, a fim de que possas exercer, com fidelidade e alegria, o ministério do serviço na Igreja, onde quer que o Senhor te chame.

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09 de Dezembro de 2017