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Saudação de D. Américo Aguiar à Diocese de Setúbal

1. Irmãs e irmãos da Diocese de Setúbal, a todos, mulheres e homens de boa vontade, uma saudação fraterna. 

Irmãos bispos Gilberto e José, Padre José Lobato, membros do Colégio de Consultores, padres, diáconos, religiosas e religiosos, pessoas consagradas, seminaristas, agentes das mais diversas áreas da pastoral, meus queridos jovens, famílias, pais e avós, filhos e netos, doentes e reclusos, habitantes, trabalhadores e empregadores, visitantes, irmãos do caminho ecuménico e do diálogo inter-religioso, mulheres e homens investidos de autoridade e responsabilidades autárquicas e governamentais, forças vivas do associativismo sadino e das demais instituições civis… todos, todos, todos… obrigado pelo trabalho, empenho e dedicação de cada um em prol do bem comum, da dignidade da pessoa humana, da caridade e da subsidiariedade.  

2. A partir do momento em que disse o meu primeiro “sim” a Jesus e à Sua – nossa – Igreja, percebi que este é um caminho que se faz todos os dias, mas sem olhar para trás. Aliás, é o próprio Jesus que o diz.

Ao longo deste caminho tive verdadeiros mestres, homens e mulheres, que me mostraram como pode ser extraordinária uma vida de entrega total, incondicional, colocando a confiança em Jesus Vivo que tudo pode, que tudo ama e salva. Foi assim no seminário, na Diocese do Porto que me viu nascer. Foi assim com os Bispos que servi e com tantos irmãos no sacerdócio com quem partilhei dúvidas, convicções, tristezas e alegrias.  

Aprendi a não fazer muitos planos, mas antes a predispor o coração e a cabeça para aquilo que o Senhor me pedisse, acreditando sempre que seria Ele a guiar os passos de quem me guia. Sem nunca o ter previsto, deixei o Porto e rumei a Lisboa, uma diocese onde tudo era novo e desconhecido, com exceção do Patriarca Emérito, D. Manuel Clemente, a quem servi enquanto Bispo do Porto. Aqui lhe presto a minha homenagem de sincera gratidão e grande respeito.  

Disse sim à presidência do Conselho de Gerência da Rádio Renascença e acolhi o enorme desafio de organizar a nossa Jornada Mundial da Juventude, que aconteceu em Lisboa, no passado mês de agosto, mas que, na verdade, movimentou o país de norte a sul, do litoral ao interior, no continente e nas ilhas. Na agitação das últimas semanas de preparação deste encontro inesquecível fui surpreendido pela decisão do meu – do nosso – querido Papa Francisco, ao confiar na minha pessoa a responsabilidade do Cardinalato. Agora, recebo a notícia da sua decisão em relação à Diocese de Setúbal, que muito me honra. 

3. Neste momento permitam-me que sublinhe a minha relação e amizade com D. Manuel Martins, o homem que assumiu a criação desta Diocese, um Bispo inquestionável na história da Igreja em Portugal, que se fez grande ao lado dos mais pequenos, dos mais pobres, dos mais esquecidos. Conversámos muitas vezes, eu um jovem seminarista e sacerdote e ele, um Bispo experiente, forte, destemido, mas capaz de entender as fragilidades e os medos que todos enfrentamos, com mais ou menos defesas.  

Ao receber a notícia da minha nomeação, lembrei-me de imediato de procurar a sua primeira homilia ao chegar a Setúbal em 1975 e a afirmação que foi já citada centenas de vezes: «Nasci Bispo em Setúbal, agora sou de Setúbal. Aqui anunciarei o Evangelho da libertação, na justiça e no amor. Aqui acompanharei, entusiasmado, todos os que trabalham e lutam para que o homem seja mais homem, numa sociedade justa. Aqui proclamarei o Cristo vivo – que veio e está no meio de nós – o único que pode alicerçar na fraternidade a sociedade justa que é a aspiração angustiante de todos nós.»  

Posso dizer que nasci cardeal em Setúbal (recebi o anúncio da nomeação num armazém da cidade sadina onde fazíamos a montagem dos kits da JMJ), agora sou de Setúbal…  

Não tenho pretensão de ser capaz de tanto, mas quero seguir este caminho de entrega, de fidelidade, de capacidade de levar o anúncio do Evangelho, acreditando de corpo e alma que a justiça e a paz são fruto da ação de Deus, sempre que os homens e mulheres de boa vontade assim o permitem. Quando somos capazes de abrir os nossos corações sem medo, permitimos que Nosso Senhor opere as maravilhas que sonhou para cada um de nós. 

Mas também reaprendi – e a JMJ Lisboa 2023 foi uma grande escola – que nada se consegue de forma isolada ou solitária. Conseguimos alcançar a meta quando vivemos uns com os outros e uns para os outros. 

Venho para Setúbal de coração aberto, com os medos normais de quem se sabe frágil porque humano, mas cheio da Esperança que vem de Deus, que nos leva mais longe, que nos faz superar dificuldades e tropeços, que nos faz acreditar que é possível construir um mundo mais justo, mais fraterno, mais transparente.  

Uma Diocese é uma imensa comunidade, cheia de homens e mulheres, de crianças e de jovens, todos diferentes, mas é igualmente uma comunidade cheia de sonhos e aspirações distintas, cheia de abundâncias e de carências. Conseguir chegar a todos, estar com todos e para todos é aquilo que o Papa Francisco me pede, é o que Deus espera deste vosso Bispo.  

4. À Diocese de Lisboa deixo a minha gratidão por tudo o que vivi, nomeadamente pela experiência única que foi preparar e viver a Jornada Mundial da Juventude. A Diocese do Porto está e estará sempre no meu coração. Sou um filho do Norte, do nosso belíssimo norte de Portugal. Porto, Maia, Matosinhos e Leça do Balio. 

5. Não tenho um programa pastoral escrito, nem decisões previamente tomadas. Tenho sim, na memória do coração, muitas das palavras do Papa Francisco que escutámos naquela primeira semana do passado mês de agosto e tantas outras que o Papa não se cansa de repetir: 

  • a Igreja é de todos e para todos – todos, todos, todos; 
  • que nunca olhemos para ninguém de cima para baixo, a não ser para ajudarmos a levantar quem está caído; 
  • que sejamos capazes de correr riscos e corajosos a denunciar a pobreza, a injustiça, a mentira e tudo o que nos diminui enquanto humanidade;
  • que lutemos por agir no concreto e estar próximos dos mais frágeis, dos doentes, dos idosos, dos presos, dos desempregados, dos migrantes e dos refugiados; 
  • que a construção da esperança seja uma realidade, onde todos estamos unidos à volta do ambiente, do futuro e da fraternidade; 
  • que o Sínodo sobre a Sinodalidade dê frutos abundantes, capazes de transformar a Igreja que somos e o tempo que vivemos;
  • que sejamos determinados na tolerância zero a qualquer forma de abuso sobre menores e adultos vulneráveis; 
  • que queiramos efetivamente ouvir os jovens, dar-lhes espaço, capacidade de decidir, de optar, de construir a Igreja do presente e do futuro. Jovens tende a coragem de substituir os medos pelos sonhos… não sejais administradores de medos, mas empreendedores de sonhos.

6. As promessas cumprem-se, mais do que se fazem. No dia de hoje, não me sinto capaz de grandes promessas, mas comprometo-me a cumprir a sugestão que o Papa Francisco nos deixou numa das suas intervenções durante a visita ao Bairro da Serafina em Lisboa: «Continuai para diante e não desanimeis! E se desanimares, bebei um copo de água e segui para a frente!»  

Festa de S. Mateus, Apóstolo e Evangelista, 21 de setembro de 2023  

+ Américo  
Bispo eleito de Setúbal  

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21 de Setembro de 2023